Nem sempre a incursão por caminhos ecológicos se revela uma escolha fácil, como o prova o selo Minergie-ECO® que grifa as novas instalações da Audemars Piguet. E, sem qualquer dúvida, neste caso, o fim justificou os meios, não fossem os colaboradores os principais beneficiados pelas medidas tomadas. Vantagens atrás de vantagens numa edificação industrial pioneira na Suíça.
Por: Cesarina Sousa
O momento económico pouco favorável que também na relojoaria se tem vindo a sentir não foi razão para deixar ir por água abaixo a inauguração das novas instalações da Audemars Piguet, em Les Forges. Aliás, se as portas se abriram no mês de Agosto, em plena crise, a primeira pedra foi lançada já em 2007, cerimónia marcada pelo encerramento de um Audemars Piguet Royal Oak no terreno de construção. Semente que marcou a história da manufactura, do relógio não nasceu uma árvore, nasceu antes uma edificação de linhas modernas certificada pelo selo suíço de construção Minergie-ECO®: “A Audemars Piguet era, em 2005, a primeira empresa a visar este selo, então em fase de teste”, esclarece Jasmine Audemars, “em 2009, a manufactura de Les Forges é o primeiro – e único – edifício industrial certificado na Suíça”.
Criado em 1998, o selo Minergie garante que um edifício certificado oferece conforto acima da média, com menos 60% de consumo energético face a um edifício convencional”, esclarece a entidade responsável. Trata-se de uma construção enquanto sistema ancorado num excelente isolamento térmico, numa ventilação suave e automática e em sistemas de aquecimento/arrefecimento eficazes, adaptados ao ambiente.
O desenvolvimento do conceito levou à oficialização, em 2007, do selo Minergie-ECO® que, segundo a Audemars Piguet, “comporta ainda mais exigências, incluindo a selecção de materiais isentos de substâncias nocivas para a saúde dos utilizadores e para o ambiente”. Em traços gerais, os edíficios Minergie-ECO® reúnem uma série de condições minuciosas bem ao gosto da relojoaria (ver caixa), entre as quais o recurso a energias renováveis.
A opção pelo selo Minergie-ECO® deixa antever uma jornada rigorosa com diferentes etapas e constantes processos de avaliação, desde o projectos iniciais até à conclusão efectiva do edifício. Uma vez que as despesas gerais ficaram apenas cerca de 5% superiores a um edifício convencional, para a manufactura o grande desafio acabou por não ser financeiro.
Já a pesquisa de soluções originais e respeitadoras dos critérios exigidos pôs mesmo à prova a comissão de construção, a Fundação Audemars Piguet e o gabinete de engenheiros, que, em estreita colaboração, garantiram o sucesso de projecto.
O selo Minergie-ECO® exige sistemas não poluentes de aquecimento devido ao reforço do isolamento térmico o que levou a Audemars Piguet a conceber, em parceria com a comunidade envolvente, uma central de aquecimento em madeira de grande capacidade. De parte ficou a ideia de uma central exclusiva para a manufactura: “Neste momento”, explica Jasmine Audemars, “a central fornece a energia a edifícios privados e públicos equivalente a 100 casas. Toda a aldeia beneficia da diminuição de emissões de CO2”. Por outro lado, o sistema de arrefecimento ignora a climatização e recorre ao ar exterior, aproveitando as condições climatéricas de Vallé de Joux.
Com 12.000m2 e com arquitectura inspirada nas antigas fazendas da aldeia, o edifício integra-se perfeitamente no ambiente em que está inserido. A divisão do interior em três zonas de acordo com as etapas de produção, bem como as janelas de grande dimensão que possibilitam excelente iluminação natural garantem o conforto dos cerca de 300 colaboradores. No exterior, os jardins completam o cenário, sem esquecer a revitalização da ribeira de Le Brassus.
A testagem de materiais foi mais um obstáculo a ser ultrapassado: “Quando a comissão de construção começou o seu trabalho, não existiam revestimentos de piso que satisfizessem as exigências ecológicas e que fossem resistentes aos produtos utilizados nos ateliers e ao peso das máquinas. Testaram-se numerosas substâncias”. Assim nasceu um edifício com “parquets” de madeira certificada FSC® ( “Forest Stewardship Council”), com fibrocimento nas fachadas, com alumínio anodizado nos caixilhos dos vidros, com tintas à base de água, materiais isentos de substâncias nocivas para a saúde.
Pensada também para a saúde e bem-estar dos colaboradores, a aplicação do princípio de protecção das instalações eléctricas e de instalação das telecomunicações exigiu um estudo do controlo das fontes dos campos magnéticos. “O sistema inovador de telecomunicações e de rede informática interna reduziu os campos electromagnéticos para níveis particularmente baixos”, enuncia Jasmine Audemars. De forma surpreendente, as medições efectuadas garantem que os campos não ultrapassam os 0,112 volts por metro, quando as normas suíças admitem 4 volts por metro.
A Audemars Piguet é pioneira na escolha Minergie-ECO® para um edifício industrial. Na verdade, o selo tem sido utilizado mais em edificações particulares ou administrativas, caso da UEFA, principalmente nos países do norte da Europa. O alargamento das instalações da Jaeger-LeCoultre segue precisamente os passos da Audemars Piguet, num compromisso ecológico, salientado no site oficial.
E o futuro, o que poderá trazer de novo? Com a certeza de um estudo académico suíço, a Audemars Piguet “está no bom caminho”. Agora, as etapas seguintes passam pela “modernização de edifícios antigos e pela redução das deslocações profissionais” explica a bisneta de um dos fundadores da manufactura. Para a sede está prevista o criação de um sistema de teleconferências que permite reuniões à distância.
Até há pouco tempo, em Portugal era raro ouvir-se falar em construção sustentável ou construção ecológica. O mito dos climas mediterrânicos, os custos acrescidos ou mesmo falta de planeamento eram razões apontadas para deixar para trás soluções alternativas.
Hoje, avistam-se alterações neste panorama, inclusive a nível legislativo. Jorge Antunes, da Bio-habitat, representante portuguesa de materiais de construção ecológicos, considera que “existem cada vez mais seminários e informação acerca da construção sustentável.
As instituições de ensino têm dado destaque também a este tema”. Diversas organizações portuguesas, por exemplo, são parceiras do GreenLight, um programa europeu orientado para soluções iluminação energeticamente eficientes.
Quanto ao Minergie, não esqueçamos que é um selo suíço, pelo que em Portugal, é possível encontrar a sua referência apenas em materiais específicos de construção, como o ISOFLOC, “ um isolamento térmico e acústico de lã de celulose, feito a partir de papel de jornal reciclado e boro que consome 36 vezes menos energia do que a maioria dos isolantes; além disso, é um produto inócuo para a saúde e para o ambiente que garante um bom isolamento térmico e acústico, poupando energia quando do aquecimento/arrefecimento do ar interior”.
Vários projectos particulares já recorreram ao ISOFLOC, mas também algumas empresas, como o Hotel-Casino de Chaves, a Electro, S.A e até restaurantes. O Alvaláxia e os Supermercados Pingo Doce optaram pelo ISOFLOC para o isolamento das salas de máquinas.
Jorge Antunes refere que um edifício com preocupações ecológicas como o da Audemars Piguet, “ é composto por materiais que não libertam toxinas, melhorando a qualidade do ar interior e vai oferecer aos seus utilizadores um maior conforto. Em primeiro plano temos a saúde” e este aspecto faz toda a diferença.
Fonte: Espiral do Tempo